Cientistas descobrem ‘hormônio da gordura’ que pode servir de marcador para obesidade

Um hormônio pode ser a chave para o combate à obesidade, doença que afeta mais de 600 milhões de pessoas no mundo. Novo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Kentucky, nos EUA, demonstrou que a neurotensina está diretamente ligada à absorção de gorduras no intestino em testes realizados com camundongos. A descoberta pode abrir caminho para novos tratamentos para a redução de peso e servir como uma marcador biológico para prever o desenvolvimento futuro da obesidade em crianças e adolescentes. — Levantamos dados sobre humanos e o fascinante foi descobrir que pessoas com altos níveis de neurotensina têm duas vezes mais risco de se tornarem obesas — explicou ao GLOBO Mark Evers, diretor do Centro de Estudos sobre Câncer da Universidade de Kentucky e líder do estudo, publicado ontem na revista “Nature”. — Talvez seja possível criar medicamentos que bloqueiem o hormônio, mas acredito que o maior ganho será a possibilidade de identificar essas pessoas com altos níveis de neurotensina, para que elas modifiquem o estilo de vida. No experimento, os pesquisadores criaram geneticamente camundongos deficientes em neurotensina, que foram mantidos sob dieta rica em gorduras pelo período de seis meses. Em comparação com o grupo de controle, as cobaias modificadas, tanto machos como fêmeas, ganharam significativamente menos massa corporal. A resistência à insulina relacionada à obesidade, precursora do diabetes tipo 2, também foi atenuada, com menores níveis de glicemia. Os camundongos sem neurotensina também apresentaram menor acúmulo de colesterol e de gorduras no fígado. “Juntos, esses resultados indicam que a deficiência em neurotensina protege contra doenças (no caso, obesidade, resistência à insulina e esteatose hepática, conhecida como gordura no fígado) associadas com o consumo de dieta rica em gorduras”, diz o estudo. O procedimento oposto foi realizado com drosófilas. Moscas foram alteradas geneticamente para produzirem neurotensina e acumularam mais gordura no corpo que o normal. “Os dados dos camundongos e das drosófilas nos levou a avaliar o possível papel da neurotensina no desenvolvimento da obesidade e suas complicações metabólicas em humanos”, afirma o estudo. Por motivos óbvios, o experimento não pode ser replicado em humanos, mas com a análise dos dados de um estudo sobre o câncer com 28.449 pessoas, Evers e sua equipe identificaram que indivíduos obesos e resistentes à insulina têm níveis elevados de pro-NT, um hormônio precursor da neurotensina, e que o risco de desenvolvimento da obesidade é o dobro em sujeitos não-obesos com alta concentração de pro-NT. PERSPECTIVA EVOLUCIONÁRIA Evers explica que a neurotensina é um hormônio natural. Além do papel na absorção de gordura pelo intestino, atua sobre o sistema nervoso central, com influências sobre a forma como nos movimentamos e experimentamos a dor e o estresse. No sistema digestivo, ele é produzido e liberado com a ingestão de gorduras, mas o que chama atenção é que as pessoas possuem diferentes níveis de concentração, mesmo em jejum. PUBLICIDADE — Essa será uma das linhas de estudo que daremos prosseguimento: tentar identificar por que o nível de neurotensina varia entre os indivíduos — disse Evers. — Imagine o homem que vivia nas cavernas, que não tinha acesso ao alimento na prateleira do supermercado. Ele precisava armazenar gordura para sobreviver. O problema é que não conseguimos desligar o hormônio para a dieta ocidental, abundante e rica em gorduras. Em entrevista à revista “Medical Daily”, Conan Mustain, oncologista da Universidade de Arkansas, destacou que a metodologia empregada no estudo é robusta e traz novas informações sobre a relação entre a neurotensina e a obesidade. Existe uma teoria que liga a neurotensina à leptina, hormônio relacionado à sensação de saciedade. Por esse entendimento, os camundongos estariam imunes à leptina e não conseguiriam controlar a vontade de comer, com consequente ganho de peso, o que não aconteceu. — Outras causas da obesidade podem incluir a abundância de carboidratos, e é duvidoso que a neurotensina tenha alguma influência neste aspecto — disse Mustain. — Sempre que encontramos uma relação como essa é excitante. Eu acredito que exista grande potencial, mas precisamos compreender me Fonte: O Globo / Site